Deslumbre
[Revista Surf Portugal>175>edição comemorativa de 20 anos]
Um amigo 14 anos mais velho se mostrava aflito com as novas ferramentas de previsão ao alcance de todos. Achava que em breve não haveria mais surpresa e todos, orientados pelos precisão dos mapas de vento e ondulação, chegariam no mar ao mesmo tempo.
Dei de ombros.
Desde o disk surfe, detalhando as condições de quase todas praias em apenas 3 minutos, os pessimistas apontam o fim do surfe, ou o fim da tranquilidade na água.
A verdade, nua e crua, é que nessa relação com os humores da natureza a intuição e o conhecimento são as principais armas para caçar ondas.
Mesmo que o seu vizinho de rua, que acaba de descobrir o benefício do impulso com a barriga (ou abdomen, não no meu caso) num bom e velho cut-back, mesmo que ele acesse mais de 50 vezes ao dia um saite que esmiuça todas possibilidades de configuração de ondas, marés e ventos, ainda assim sua chance de estar no lugar certo, na hora certa é proporcional ao seu interesse e envolvimento com esse negócio estranho que nos arremessa às bancas todo mês para, senão comprar (opa!), ao menos folhear esta revista que tem nas mãos.
O que não quer dizer, absolutamente, que o simples fato de comprar e ler esta ou qualquer outra revista de surfe fará de voce um lobo do mar.
Não senhor.
Conheço uns tantos que até assinatura tem e no entanto tem uma relação rasa com a coisa toda.
Eis o que quero dizer: o deslumbre começa aqui.
Lembro que meu Pai toda vez que viajava trazia uma Surfing ou uma Surfer – e eu sequer entendia ingles.
Dicionário ao lado, lia desde as cartas até os slogans publicitários, com a atenção e o apetite dum cão faminto.
Até ali, meu interesse limitava-se ao futebol, mas a Copa de 82 tratou de matar nossos sonhos de um mundo melhor e, com 15 anos, o surfe parecia não trazer limites.
Na recente edição ‘Verde’ do Tracks (jornal Australiano transformado em revista), o genial George Greenough, um dos pais do surfe como se conhece hoje, declara na entrevista o que o irrita mais no momento: ‘Cameras na praia. Muita gente está de fato aborrecida com elas. Simplesmente não há mais conhecimento (envolvimento) no surfe.’
Greenough quer dizer, ou eu especulo que ele quer dizer, que a experiência de estar na praia é cada vez menor.
Com os inúmeros filmes de surfe e saites despejando toda sorte de informações no recem-formado surfista, o camarada encontra-se acorrentado dentro do quarto vivendo 300 vidas – menos a sua.
Por que atravessar a rua se a foto da praia está disponível desde as 7 da matina ?
Apesar de entusiasta do WCT, não consigo perdoar a ASP por ter tirado do surfista comum a chance de ver seus ídolos de pertinho.
O circuito de sonho leva os 45 para lugares inatingíveis para o garoto de 14 anos que fui um dia que deseja avidamente ver os melhores surfistas do mundo surfando em ondas mais próximas da sua realidade.
Assim estamos afastando o sujeito cada vez mais da praia, por mais incrível que possa parecer.
Essa linhazinha que divide o exato momento que o malandro deixa de apenas ‘pegar ondas’ para virar surfista pode ser atravessada com uma onda que nos tira completamente de onde estávamos antes, com uma comovente cena dum filme, ou numa foto, aqui mesmo, nessa revista – ou ainda numa frase reveladora.
Greenough percebe que não basta registrar tudo e disponibilizar o mais rápido possível no Youtube, é preciso, é urgente que estejamos na praia, pés sujos de areia, rosto melado de maresia, olhos vermelhos.
O amigo 14 anos mais velho preocupado lá do início do texto viveu, e vive, intensamente os pés sujos, rosto melado, olhos vermelhos e agora está descobrindo a enormidade de DVDs de surfe lançados a kilo no Mercado.
Meu amigo conheceu a pouco o youtube e não consegue conceber como vai arranjar tempo para assistir tanta coisa se todo tempo que lhe resta quando não está trabalhando ele passa na praia.


