Herro
[Coluna da Surf Portugal de Outubro, entregue no 19/09/06, dias antes do final do WCT de Hossegor, onde Parko passou o trator pela concorrência, antes tambem da fatídica final de Mundaka, quando negou um aperto de mão, humilhado por Slater, consagrado octa.
Escrever é arriscar.
Pra edição de Novembro, já nas bancas de lá, escrevi sobre a falta que faz um vilão ao WCT.]
Matt Hoy tinha um estilo inspirador.
Não era lá grande competidor, gostava de festas, mulheres e bebida mais do que humilhar oponentes.
Grandalhão como Simon Anderson e Luke Egan, Hoyo precisava de onda para desenhar seu lindos arcos e naquele circuito do início dos 90, isso era raro.
A Austrália tem facilidade em produzir esses surfistas.
Ainda quase na mesma geração, teve um baixinho chamado Shane Herring, na minha opinião o mais talentoso e ajeitado do paco que surgiu em 1990 – e olhem que nesse grupo tínhamos Slater, Powell, Beschen, Knox, Dorian, Ross Willians, Hoy, Egan e mais.

Shane Herring, depois da tempestade.
Herring podia não ser o melhor deles, não disse que era, mas tinha uma postura na prancha que comovia.
Em 1992, Herring empurrado pela torcida local bateu Slater na final do Coke, assumindo a ponta da corrida ao título.
Terminou em quarto no final do ano.
[Nota: Em quinto lugar nesse ano ficou Fabinho, que inclusive venceu no Japão com uma prancha comprada do Herring, as famosas Banana boards do Greg Webber. Dali para baixo.
Shane Herring ainda ficou mais alguns meses tentando achar o trilho no WCT e nada.
Quando encontrei Barton Lynch na Joaca no final da temporada, Nescau Pro 1993, perguntei pelo tampinha.
Barton bateu no braço, ali mesmo onde tiramos sangue, olhou pra areia e nem precisou dizer mais nada.
O buraco é fundo quando a droga entra pelas veias.
A foto acima é recente, uns 3 ou 4 anos.
Sarge me disse certa vez que o maior talento que ele tinha visto em toda sua vida depois do Occy era Shane Herring e que todo ano ele prometia voltar ao circuito.
Quem se lembra ?]
Faltou ritmo.
Ritmo é o que não falta ao Joel Parkinson.
Perguntado hoje sobre seu surfista predileto, Shane Herring nem pisca: Parko.
Desde Curren não vejo um surfista tão bem aceito pelas gerações anteriores como Joel Parkinson.
Fico impressionado com as reações quando em conversas seu nome é citado, uma verdadeira chuva de elogios, sempre acompanhada dum porem: precisa ‘querer’ mais o título mundial.
Esse camarada representa para a nova geração o que Rob Machado representava na anterior, sem a cabeleira, sem o violão.

Quem não torce pelo Joel ?
Joel é o surfista que todo mundo queria ser: elegante, versátil, moderno e clássico, quase debochado.
A semelhança com Machado tambem resvala na falta de gana para vencer, dois surfistas fabulosos, cheios de recursos e altamente indolentes em competição, como dissessem: ‘Isso pouco importa pra mim’.
Em 2006, ficou claro que Parko menospreza os novatos e paga caro por isso.
Perdeu para Martinez em casa porque achou que não seria um estreante no WCT que o tiraria do campeonato.
Em Bells, tentou fazer o que podia – tinha que fazer o impossível – mas bateu de frente num Slater exuberante, irresistível.
Nas duas esquerdas pesadas, apesar de surfar brilhantemente amargou duas derrotas precoces, contra o herói local Hira no Tahiti, apesar de o ter moído na primeira fase, e contra Troy Brooks em Fiji, imperdoável.
O mais incrível em Parko é seu retrospecto contra Slater: até 2006 ele nunca tinha perdido nos 4 encontros.
E contra Andy, arrisco dizer que a rivalidade é ainda mais acirrada do que Andy X Slater.
Andy e Slater se enfrentaram 7 vezes, 5 vitórias do A.I. e apenas duas do K.S.
Parko e Andy disputaram 7 baterias, tres finais, Bells e Nijima e Pipe em 2003, ano extraordinário do havaiano, que venceu a trinca, mas nas outras 4 deu Parko.
Mick Fanning é freguês de carteirinha – 4 x 0.
Quer dizer: o problema não é competição propriamente dita, é motivação pra derrotar os monstros do circuito – e nem todo mundo assusta Parko.

O WCT nos últimos 5 anos tornou-se uma corrida de dois carros.
O esporte precisa de mais gente disposta a chupar a carótida do adversário, como escrevia Nélson Rodrigues. Falta o olhar rútilo em Parko.
Falta a indignação.
Apenas Slater e Andy se alfinetam, ninguem mais arrisca dizer: é comigo ?!
Joel Parkinson poderia chamar a responsabilidade para si e bater no peito como um King-Kong enfurecido mas a vida lhe é demasiada mansa e as campanhas publicitárias cada vez menos dão bola aos campeões.
Nunca o surfe precisou tão pouco dos vencedores e isso reflete na atitude blasé dessa meia dúzia que assiste pasma Andy e Slater dominarem completamente a cena competitiva.
Duke era campeão olímpico, Phil Edwards era sem sombra de dúvidas o melhor.
Alguem tem que meter o pé na porta e interromper esse jogo de comadres.
Eu apostava no Parkinson, mas tudo indica que Taj vai lutar pelo vice, até que Andy resolva voltar, como sempre faz, ao topo.


