Insonia
Nessa segunda foi programado um debate para encerrar o primeiro circuito de vídeos de surfe, uma pequena mostra homenageando Pepe Cezar e Rafael Mellin, quatro dias exibindo vídeos gratuitamente, como se interessados houvesse.
Debate marcado para 7, foi adiado até as oito e meia para poder acomodar melhor os 4 malandros que lá se dignaram a aparecer, repito: quatro.
Tinha mais gente no corpo debatedor do que no outro lado, fizemos, portanto, uma roda com todos os 9 e começamos um longo papo recheado de lugares comuns.
Uma das coisas que mais intrigava era: Por que não despertava o menor interesse um evento como esse ?
Divulgação! grita o sujeito da gravata com motivos infantis.
Publicidade, a alma do negócio, naturalmente.
Mas o Circuito foi exaustivamente divulgado em todos grandes jornais do Rio e saites da grande rede de informação, retrucaram os de bermuda florida.
Nesse exato momento fui arrebatado por uma idéia assustadoramente possível dada essa era de exibicionismo que passamos - espero passe!
Pensando com meus botões do calção, percebi que hoje há uma verdadeira inversão de valores até mesmo em manifestações simples como sentar para assistir um filme de surfe.
O camarada hoje quer é ver a si próprio.
Como nesses programas de TV que apostam todas fichas na imagem do jovem de corpo saudável e cabeça de Papel, feito o marcha soldado.
A eternização da imbecilidade juvenil, ornadas por belos corpos e paisagens mais do que manjadas com enquadramentos de estagiário de produção de quinta, tudo ao som, muito bacana, de alguma banda que o estágiario ouve no Ipod - afinal, voces bem sabem, sempre haverá uma regra para confirmar a exceção.
São fotologs, com fotos e tanta cagada de regra, preferências musicais, drogas prediletas, frase cretina do Jabor plagiada de algum texto que ele leu e se apropriou, cidade onde mora, praia que frequenta, marca de roupa preferida....
Onde, essa urgência de comunicar ?
Papai não deu carinho, só mesada ?
Blogs, a auto-assessoria do mocinho moderno e da mocinha descolada, um 'meu-querido-diário' público, ao alcance de todos, com todos acontecimentos importantes da agenda: ontem foi irado! acabei de ler o livro do Chomsky e achei bárbaro!, Está em cartaz um filme iraniano imperdível, Batatinha quando nasce..., cara, voce precisa mostrar como realmente é!
Todos com essa incorrigível mania de...informar.
Minha camisa diz: Ouço Bad Religion, já fui para o Tahiti, frequento mostras de arte contemporânema em Novioruque, faço capoeira, estudo na Puc, mas não vou à aula.
Quando a próxima triagem pro BBB ?
O malandro não quer mais ver nada.
Quer é protagonizar, fazer cara feia, muque, mostrar bum-bum, mandar beijinho.
O surfe não foge disso, com os programas cada vez mais mostrando o apresentador pegando onda, o músico, a atriz.
Apresentador não pega onda na frente das câmeras, apresentador deveria se limitar a reproduzir textos razoavelmente compreensíveis e, olé!, apresentar. Músico toca, atriz atua, surfista, surfa.
A bundalização da Zona de impacto, que já nos presenteou com a série completa do Surfers Journal e uma cobertura séria do circo da ASP, envergonha até o mais fanfarrão dos 'radicais'.
Gilberto Vasconcelos previa isso, uma geração educada pelos programas da Xuxa, completamente sem identidade, no livro 'Cabaré das crianças' (Rio de Janeiro, Espaço e Tempo, 1998), não poderia dar em outra coisa, um fascínio magnético pela bunda, como aquela, monumental que a rainha dos baixinhos, beijinho, beijinho, chao, chao, exibia todas manhãs.
Faltaram os estimados nem sei quantos mil jovens surfistas ao debate, alardeados em pesquisas nas grandes revistas semanais, esses mesmos que nunca estão n'água quando o sol nasce por todo litoral carioca, esses mesmos que não compram DVD de surfe, nem revista de surfe, os milhares que infestam o fórum do saite waves, os mesmo que tem toda certeza do mundo que seremos sempre uns merdas no circuito mundial pelo mero fato de termos nascido no Brasil, um acidente geográfico.
Na imprensa, nada se falou, exceto por um artigo escondido no Globo online, que sequer dava-se ao trabalho de comentar algum dos filmes exibidos ou analisar porque seriam exibidos - apenas aproveitou o gancho e, sem perder tempo, deitou a falar da nova geração carioca de diretores.
A próxima mega-feira do hyper-mercado do surfe poderia promover um debate com os empresários perguntando porque só o Rio de janeiro, aquela província de Zampa, se renova na produção de vídeos de surfe ?
Quem sabe, na próxima vez, convidamos o Taylor Steele e cobramos um qualquer pr'essa turma?
O debate, continua...


