Pepeu e o chá
[Amizade, o camarada que escreveu esse texto que vos ofereço como parte das festividades de final de ano dispensa apresentações - mas, insistente que sou, apresento novamente.
Pepê é surfista e escreve como gostaria de ter surfado (alguma coisa entre Carroll, Occy, Curren e Picuruta), nas horas vagas (e como são vagas, as horas!) dirige filmes como Slater dentro do tubo no Backdoor, com improviso e precisão - e combinam, esses dois ?
Esse texto foi publicado na Alma surf e mais não disse.]

Esses contos ficariam muito bem nessa revistinha aí de cima- pois não ?
As três meninas quilha, borda e fundo estavam sentadas em volta da ostra-mesa do restaurante marílico. Praticavam o feminino e milenar hábito de tagarelar sobre meninos. Borda, com figurino básico e justo, toda cheia de si, reclamava: - Ninguém me chama mais pra sair.
Fui condenada a dona-de-casa, fui condicionada a página de revista velha. Virei memória-afetiva de uns poucos surfistas já fora de moda que insistem em me cravar na parte crítica da onda...
Nostálgica, borda continuava projetando seu cineminha verbal: - Era tão bom aqueles tempos que me puxavam firme pela mão e me escondiam bem nas entranhas das águas pesadas e espessas do Havaí.
Jamais vou esquecer uma tarde em Sunset quando Carroll, Kong, e Occy me fizeram sentir disputada.
Me fizeram pensar que eu tinha uma função nobre na vida. Me fizeram achar que eu tinha dono...
Fundo, cheia de tatuagens pós-modernas, interrompeu sua garfada e puxou a conversa pela maçaneta: - Qualé borda? Quem anda pra trás é siri afoito!! O mundo mudou, tua fase de reinado já passou.
Porque você não fica em casa assistindo mini-série e costurando roupinhas? Quem tá bombando hoje sou eu! Eu rodopio pelos ares, visito sítios aéreos jamais sonhados pelos meninos de antigamente!!
Como dizia o portuga Gonçalo "o passado é um lago cheio de peixes com a placa escrita: É PROIBIDO PESCAR" Borda retrucou: Que adianta visitar os ares com majestade e deslizar que nem uma enceradeira baiana* na parte crítica do mar? Que andianta voar programadinha e matemática no vento e ficar descompassada e amantegada no tapete da onda ?
Fundo se sentiu provocada. E não era moça de levar desaforo pra casa: - Não precisa ficar nervosa... você subiu assim nas tamancas só porque o Andrezinho de Ferro nunca te chamou pra tomar milk shake...
Subitamente quilha interrompe a discussão e fala: Amigas, presta atenção em quem tá chegando ali!! Olha lá... é o CARA! Carlos Leite em carne e osso.
Não acredito!! disfarça, ele tá vindo em direção a nossa mesa: Carlos chegou sereno e decidido (é impressionante como essas palavras podem ser opostas ou gêmeas dependendo do contexto), então, dizia eu, Carlos chegou sereno e decidido.
Sorriu e disse: Vamo dá uma volta e nos divertir até o talo?.. só nós quatro alí no quintal de Róquipointi? As três ficaram absolutamente farfalhantes, e oferecidas e cremosas e envaidecidas e competitivas e cintilantes enquanto a maresia boiava rarefeita no momento crepuscular e o babaca aqui que vos escreve se sentiu o mais charlatão dos romancistas apelando para truquinhos baratos e efeitos pseudo literários... mas as moças pranchosas assim mesmo toparam o convite do rei.
Carlos tratou devida e indevidamente todas elas.
Dispensou atenção diferenciada a quilha, borda e fundo mas, simultaneamente, não deu certeza nem plantou dúvida em nenhuma delas.
Deixou sabiamente no ar reticências sobre quem era A mais poderosa.
Cada uma delas tinha, ao mesmo tempo, a ilusão e a tormenta de se afirmar como a popozuda do baile.
Borda, quilha e fundo jamais esquecerão a intensidade daquela tarde. Gisele, escondida atrás das árvores, assistia todo aquele carnaval marinho.
Depois pegou subitamente o Carlos pela coleira e o levou pra tomar um chá.
[PS - Pepê queria saber se esse negócio de blogue é mesmo do barulho. Quem quiser ler mais (e inéditos) dele por favor levante o dedo e manda um comentário aqui embaixo. Quem sabe não o convenço de escrever mais pro Goiabada ?]


