Ray
[Texto para Surf Portugal, escrito em 18 de Novembro de 2004. Pouca coisa mudou, não ?
Os links do texto levam pro youtube.
Será que já tinha publicado isso aqui no Blogue ?]

Sugar X Lamota
Curren nos surpreendeu quando falou com reverência do boxe numa de suas raras entrevistas.
‘A nobre arte’.
Numa linha era o sangrento esporte de brutamontes, logo ao lado Curren recomendava João Gilberto ao Vivo em Montreux.
Nossa cabeça, ávida por novas influências, assimilava tudo com velocidade espantosa e questionava tudo que até aquela entrevista- ou perfil, já nem lembro- era claro e evidente como Vetea num tubo no Tahiti.
14 de Fevereiro de 1951, Chicago Stadium, dia que ficou para história como o ‘The St Valentine’s day massacre’.
Sugar Ray Robinson reinava com uma técnica e estilo inigualáveis (entra Muhamad Ali e Sugar Ray Leonard, como herdeiros), reescrevia página por página dos livros de boxe, luta a luta.
Seu arqui-rival, Jake LaMotta, imortalizado no cinema por um De Niro insuperável e irrestível, no filme ‘Raging Bull’ (que rendeu um Oscar para De Niro), surrava sem pena Ray.

40 e subindo
Segundo relatos da luta, ‘o rosto de Sugar Ray era uma massa disforme de sangue e carne’ quando no décimo primeiro assalto, numa das maiores reações da história de todos os esportes, Robinson ataca enfurecidamente La Motta e o encurrala nas cordas com uma série de golpes precisos e fatais pelos dois próximos rounds obrigando o árbrito da luta a interrompê-la dando o título mundial dos médios para Robinson.
Delírio, frustração, superação.
Todos queriam ser Sugar Ray.
Todos queriam ser Curren.
Toda selvageria do impetuoso Occy, apelidado de Raging Bull pela imprensa pela força, impondo manobras às ondas ao contrário de encaixá-las como fazia Curren, toda raça e rebeldia de Occy não era páreo para a consistência de Curren – duas vezes campeão mundial.

Slater Esteve aqui
Março de 2005, Gold Coast, o ‘super banco de areia’ e a primeira etapa do WCT, 45 felizardos sonham com a largada na frente.
Andy sabe que não faz tanta diferença assim: nos últimos tres anos seu reinado foi pouco ameaçado, tem criatividade e competitividade, ninguem pode acusá-lo de burocrata. Andy entendeu as regras.
Antes de se tornar o melhor competidor, Andy era especulado como melhor dos Free- surfers,’Quando Andy vai aprender a competir e vencer um campeonato ?’ perguntavam as vozes mais ouvidas da nossa imprensa.
Não tiveram muito tempo para pensar na resposta.

Mais duas finais com esses caras e teremos uma baixa entre os espectadores
Parko espera pela sua hora.
Uma vitória em casa pode lhe render bela vantagem no iníco da corrida ao título tão sonhado.
Já venceu Kirra e Bell’s em outros anos.
Fanning…
Um senhor que poderia ser grisalho, não optasse pela careca reluzente, observa tudo com familiaridade.
Slater estuda a situação e decide que não lhe resta muito tempo.
Recorda-se de como, sem querer, assassinou uma geração brilhante de surfistas, Machado, Dorian, Willians, Kalani, Knox…com um discurso morno sobre diversão e amizade.
Todos reverenciavam Slater- ele sempre devolvia com candura, mas desafiado foi sempre implacável.
A memória traz bateria em Pipe Masters, high fives.
Sente ponta de inveja do tri-campeão e seus desafetos.

Australia no te parece
Andy devolveu o espírito de guerra ao circuito mundial, tão moderado e insosso, com títulos quase honorários, como os de Occy e Sunny – bem merecidos, importante ressaltar, mas tardios.
Tivesse insitido um pouquinho mais, Elkerton levava o seu por serviços prestados.
Com Irons acabou essa história.
Andy quer mais e não vai parar enquanto não aparecer alguem com apetite à altura.
A ASP parece feliz com seu novo Rei, mas algo deve mudar para apimentar o formato de competição por demais previsível do WCT.
Maior dinâmica no ranking durante o ano, integrado com WQS, seria uma boa saída, quem sabe ?
Dessa forma, um jovem talentoso poderia ascender ao WCT e repetir a façanha de Wood no Bell’s de 1987 (com 17 anos!), ou um surfista mediano do ‘CT descer para o ‘QS em plena temporada.

É hora do Mick, Não ?


