Sem cordinha
Primeiro veio a onda de surfar sem cordinha.
Surfista que era surfista de verdade, qualquer um que achava ter alguma coisa a mais do que os outros, surfista mesmo, não usava ‘leash’.
Logo em seguida, coladinho, voltaram biquilhas, bonzers, monoquilhas e até os pranchões, em plena evolução, tiveram que se adaptar para dar um toque de legitimidade.
Pronto.
Filme que não tivesse uma estrela do surfe sem uma tampa de caixão tentando parecer casual, nem era considerado filme de surfe.
Aqueles tocos devolveram o autêntico espírito do surfe.
Depois, o violão.
Ah o violão…
Me aponte mais de cinco surfistas que não arranham num violão.
Foi uma avalanche. Até banda, queira acreditar, formaram.
Machado, Slater e Peter King, The Surfers, um CD que muito provavelmente não é ouvido por nenhum dos tres, nem pelos amigos, nem por fãs.
O fã prefere vê-los surfar, inclusive o Peter King, que surfava com um jeito muito parecido com o do Joel Parkinson.
Foi instituída a palavra ‘cool’ como referência para disfarce.
Essas esquisitices que passam como uma brisa de terral, contagiam um bocado de gente.
Geralmente faz bem ao mercado, que suspira aliviado e aos surfistas, que acabam por exprimentar novos equipamentos e tiram a mais óbvia das conclusões: o nosso, de hoje, é um milhão de vezes melhor do que o de antes.

Nunca surfou com uma dessas ? então, segundo o novo testamento, considere-se um merda.
Um dos camaradas que mais influência teve nesse processo de resgate das pranchas foi Joel Tudor, um Zidane do pranchão, categoria pura.
Num desses encontros onde o pupilo homenageia seu venerado mestre, Tudor quis mostrar como se comporta atualmente uma réplica do modelo que Wayne Lynch mudou a história do surfe no filme Evolution, do Paul Witzig.
Acho que o encontro foi em Tavarua.
Lynch virou pra Tudor e espetou: Isso era um toco naquela época e continua a ser um toco hoje.
A frase se completa no clássico Litmus, do Andrew Kidman, Wayne Lynch sentado na sua tenda a moda indígena e vestido com o mesmo poncho marroquino que vestia quando ainda tinha 15 anos no Evolution: Me interessa evoluir. Eu ainda quero surfar melhor. Acho que minha melhor fase foi aos 40 e ainda quero aprender coisas novas. Olho apenas para frente.
Por algum motivo que me foge a compreensão, os novos filmes de surfe considerados obras primas pela excelência estética audio-visual caem no mesmo abismo de tentar explicar o que é o surfe pra todo mundo.

Filmar surfe ? só com super 8. Alma pura.
E é aí que a porca torce o rabo.
Quando, por ingenuidade ou pretensão mesmo, tentamos colocar em palavras, ainda que acompanhadas por imagens magníficas e músicas maravilhosas, mas quando tentamos decifrar a magia por trás disso que sofremos, seja vício, vagabundagem, hábito ou militância, toda vez que tentamos explicar essa doença contagiosa, nos embananamos.
Os Malloys são mestres na arte de fazer filmes chatésimos com imagens duma beleza rara.
Thomas Campbell é o novo eleito para salvar a alma vendida do surfe e devolvê-la aos donos.
Campbell superou-se no processo de realizar um filme de surfe, trazendo sua arte única e incrivelmente rústica e sofisticada para dentro, ou para frente, das imagens deixando tudo com as cores e formas que apenas ele vê.
Desde de Surfers – The Movie, que a Gotcha bancou em 89, não vejo debaterem tanto sobre um filme (e celebrarem!) como Sprout, do Campbell.
Sprout mostra a riqueza e o ecletismo do esporte (aqui um esporte) de correr as ondas.
A turma gosta porque se enxerga imediatamente em algumas das cenas.
Esse purismo, essa aura romântica que tem vendido muita camisa e bermuda me enjoa um pouco.
No filme dos Malloys, A Broke down melody, lindo de morrer, os caras pregam tanto, são irritantemente fundamentalistas quando tentam empurrar suas convicções goela abaixo do espectador.
Fica a clara impressão de que, a partir de agora surfar com prancha, cordinha, quilha e toda essa parafenália ficou for a do tom.
O negócio é surfar de peito, o corpo humano em contato direto com a natureza, sacou (You dig ?) ?
Música tambem, dispensem o violão, que é mecânico, e concentem-se apenas na melodia: assobiem.
Puro.
Na outra ponta da corda, a mais fraca, aparece um camarada, Surfista com S maiúsculo, Timmy Turner, que usa long-john e capacete para poder dividir seus delírios com todo mundo.
Improvisa e adapta.

Sem querer criou uma pedra fundamental dos filmes de surfe com Second Thoughts.
E filmou e viajou com dinheiro contado, servindo mesas no restaurante da Mãe, em huntinghton.
Recriou Bruce Brown com sua sincera voz narrando uma aventura de verdade.
Em nenhum momento tenta explicar o que é o surfe, ou que ele representa sociologicamente.
Suas ponderações são sobre as ondas, porque sofrer para surfá-las, porque enfrentar sol e chuva, porque escolher a maré vazia, porque escolher a maré cheia.
Surfe, né ?
O mais incrível é que Timmy Turner conseguiu comover a comunidade de norte a sul do globo com ondas que já conhecemos e nem suportamos mais ver.
Vale o olhar, a maneira como Turner viu e compartiu as ondas.

Essa prancha mata soul surfers
Seu olhar é tão peculiar, que uma das partes mais perturbadoras do Second Thoughts é numa onda que sequer é surfada com, digamos sucesso.
A direita que lhe rendeu uma linda capa na revista Surfer, é tão espetacular que mesmo fechando, deixando o surfista pra trás, rouba a cena.
Não há viva alma com sal nas sobrancelhas (ave Pepê) que não exercite toda sua imaginação com aquelas imagens.
Ali, o que vemos não são ondas perdidas, são desejos.


