Sob encomenda

A lenda cresce
Cassius Clay surra Sonny Liston
Miami, 25 de fevereiro, 1964
‘A reputação de ogre invencível era merecida, enquanto Clay era considerado um impetuoso, quiçá talentoso, lunático que assinou sua sentença de morte quando chamou ao campeão de ‘urso feio e velho’ (ao pé da letra, velho fedorento, por aí…).
Antes mesmo do campeonato se definir e Clay ainda era apontado como desafiante, Liston disse: ‘ Se eles fizerem essa luta eu vou em cana por assassinato’.
A turma de Clay tinha dúvidas enormes tambem.
Durante a tensão pré-luta, seu médico estudou mapas, procurando pelo menor caminho para o hospital mais próximo.
Mas Clay, com sua promessa de ‘flutuar como uma borboleta e picar como uma abelha’ ( digamos que queira dizer exatamente isso), falou a verdade desde o princípio.
Ele ganhou o título mundial de pesos-pesados na idade de 22 anos, quando um ensanguentado Sonny Liston, ombro deslocado, foi incapaz de levantar- se do seu corner para atender o sino do sétimo round.
Dos 46 jornalistas esportivos que faziam a cobertura, apenas tres apostavam numa vitória de Clay.
O novo campeão do mundo dos pesos-pesados bradava, do alto do ringue, para eles: ‘Engulam suas plavras!’.
O texto acima, emocionante, de Oliver Irish para a coluna 10 mais do Observer esportivo, é exemplo de cuidado com a história do esporte.
Provável que boxe não seja estilo de vida, nem moda de adolescentes, mas tem uma riqueza literária sem igual.
No Brasil rareia cada vez mais bons textos na especializada.
O jornal Staff foi tão importante para a educação dessa geração, de 28 anos pra cima hoje em dia, quanto as crônicas do Nélson Rodrigues tornaram-se referências para a turma da crítica esportiva atual.
Fred D’orey, do alto do seu ego gigantesco, permitiu a ascensão de gente nova que começava a escrever e reclamar por coisas que as revistas preferiam ignorar.
Assim foi com Ricardo Lobo, Pepe Cézar, Rosaldo, Zobaram – até Giorgio Virzi teve sua chance com um debate!
Tambem comecei ali, levado por Wanderley Carbone, com um texto sobre a minha banda preferida da época: The Cult.
A vontade naquele tempo era de fazer uma imprensa bem escrita, bem lida, mais madura, temendo sempre a terrível imagem de imbecis que a surfistada arrastava com suas pranchas.
Exatamente o contrário do que se almeja hoje.
Tudo é feito sob encomenda para o ‘simpatizante’, como eles gostam de chamar: roupas, vídeos, campeonatos, campanhas publicitárias e, o que mais nos interessa, imprensa.
Confundem seriedade com tristeza.
Alegria, no caso, deve ser algo bem leve e de fácil digestão, porque pensar, todos sabem, dói…
A indústria de roupas de surfe, surfeuér, esqueceu dos senhores que tiveram a falta de sorte de passar dos 30, digamos que somos uns 35 ou 40 % do mercado atual. Nada mais é direcionado para essa corja de velhotes que insiste em continuar indo à praia disputar onda com a molecada voadora.
Imagino que a coroada deva ter algum dinheiro, pois saiu da barra da saia da mamãe faz tempo.
Por outro lado, segundo me confessa um lojista, os que ainda estão na barra da saia, nem precisam ir mais na surfechópi, madame manda Gilmar, ou Gérson, chofér, ir no centro comercial e limpar as estantes das novidades – o que Junior não gostar, vai pro filho da faxineira ou sobrinho da cozinheira.
Oportunismo.
Capa duma edição especial da mais vendida dedicada para as meninas: filho do Lipe, aquele que surfava de frente pros dois lados no Arpex e tinha a marca mais bacana de Ipanema no início dos anos 80, Energia, que patrocinava o fera braba Jeferson Cardoso, Felipe Dylon.
Na mesma hora que avistei a revista em destaque numa banca aqui da Gávea, pensei: Isso não seria igual a estampar uma foto da Sheyla Carvalho na capa da Fluir ? (Maryeva, ou Dora Vergueiro, pra ficar nas musas eleitas dessa tal imprensa especializada…).
Pois, se a resposta for, sim, seria; estamos perdidos. Atesta definitivamente que não fazem revistas para surfistas, mas para adolescentes deslumbrados com a nova onda, seja surfe, bola de gude ou porrinha.
Tentem estampar uma foto de ídolo ‘teen’ na capa duma Surfing Girl, prima da Surfing, acredito extinta, e vejam o circo das meninas pegar fogo.
Provável que Layne Beachley, Rochele Ballard e Lisa Andersen proibissem que a publicação veiculasse fotos suas depois duma bola for a dessas.
‘Vão vender revistas em outra praia!’ gritariam indignadas.
Aqui, nem cosquinhas fez…
Já se prepara mais uma nova publicação, rumores ventam do grupo Abril, para disputar essa fatia de mercado que anda melada por adoçantes artificiais.
Espera-se que tenha a mira no alvo certo: no coração do surfista.


