Tres doses atras
[Tempestade em copo d'agua>Revista Surf Portugal # 188>Outubro 2008]

Garoto da capa.
'Quando cheguei nos top 45 eu estava sempre apreensivo em cair.
Medo de cair da prancha, medo de cair do circuito.'
Palavras do Bruce Irons ao Evan Slater numa entrevista publicada na revista Surfing sobre sua decisão de deixar o WCT.
Por que nos importamos com isso ?
Talvez pelo fato do Bruce ser um dos surfistas mais fascinantes surgidos nos últimos 30 anos e sua inacreditável capacidade de auto-destruição.
Não é o primeiro, nem será o último.
Toda entrevista é um tapete vermelho para o caçula do Andy desfilar suas insatisfações com a vida de competidor.
Na sua inocente sinceridade Bruce até confessa que foi muito bem julgado nesses anos incertos de WCT e que nada guarda contra a ASP e o tão temido e criticado sistema (Seja lá o que for).
Evan Slater, editor da Surfing, bom surfista e bombeiro (destemido nas bombas) como Bruce, encera o troféu na apresentação da entrevista: Finalmente. Após quatro anos e meio de duras derrotas e brilhos esporádicos, o uma vez rotulado melhor free-surfer do mundo brevemente estará de volta para reivindicar sua coroa.
O que me deixa um pouco perturbado nessa introdução é o tom de perda, como se algo tivesse sido roubado do pobre Bruce durante seus anos de circuito.
Olha aqui, vamos combinar uma coisa: Sujeito é livre pra fazer o que quiser da sua vida.
Se alguem quis que o Bruce entrasse no circuito, esse alguem era ele mesmo e ele quis porque achou que era só entrar e pronto.
Logicamente isso foi sendo construído com grande incentivo da mesma imprensa que hoje celebra sua saída e antes reclamava pontualmente pela sua presença no circuito ao lado do irmão Andy.

Primeiro foi Fletcher, com aqueles braços medonhos, Archy refinou a arte, Bruce reinventou - em ondas de verdade.
O que será do circuito dos sonhos com essa dupla lá, levando a rivalidade feroz dos irmãos a níveis de surfe nunca antes alcançados ? Perguntavam as manchetes.
Podemos dizer que não foi a canto nenhum, ficou no mesmo lugar que sempre esteve, por vezes empolgante, outras aborrecido, sempre competitivo.
Bruce protesta ao dizer que no circuito nem sempre tem boas ondas e reflete sobre seu desgosto com ondas ruins.
Imagino.
E os outros pelo menos 10 ou mais eventos que tiveram condições épicas nesses quatro anos ?
Onde estava Bruce ?
Aos 14 anos, bem me recordo, vi um tampinha cabeludo fazer miséria em ondas de gente grande no Meio da Barra, aqui no Rio durante o Mundial amador de 1994. Bruce não devia ter 50 quilos e pegava tubos que a maioria dos marmanjos em pé na areia sequer sonhavam. Andy era assombroso, Bruce, fenomenal. Kalani não chegava aos pés.
Futuro campeão mundial, todos comentavam convictos na praia naquele dia nublado de inverno.
Dali pro WQS foi um pulo, em 1995 já estava aqui no extinto Alternativa tentando a sorte, fazendo interferência a enchendo seus juvenis cornos de cana e outros produtos menos recomendáveis.
Até 2004 cortou um dobrado batalhando pela sonhada vaguinha entre os 45.
Entrou botando banca: logo de cara ganhou o Eddie Aikau e foi revelação do ano.

Um absurdo de drope. Bruce, primeira caida em Waimea.
Antes disso Bruce já era uma lenda, fazendo final atrás de final na onda mais respeitada do mundo, Pipeline, batendo Slater e todo resto sem a menor cerimônia.
Tudo indicava que Bruce teria vida fácil no circuito, boas notas, uma turma da pesada o protegendo e pressionando a ASP por resultados (Volcom e Wolf-pack), um filme exclusivo seu, torcida enorme espalhada pelo mundo aguardava pelas inúmeras vitórias que nunca chegaram.
Os motivos abundam.
Excessos, excessos e excessos.
Para vencer, liderar, dominar, Bruce Irons precisava derrotar seu mais implacável inimigo: indisciplina.
São públicos e notórios os hábitos do rapaz.
Não gosta de acordar cedo. Ama beber com seus amigos. Festeiro. Raramente surfa, mesmo quando na casa da Volcom em pleno inverno Havaiano.
Isso tudo só realça seu brutal talento, mas sem um mínimo de disciplina o talento vai se dissolvendo com o tempo.
Agora Bruce tira um grande peso das costas.
Sai do circuito por cima, sua primeira vitória fora do Havaí no WCT (tem um troféu do Mr. Price Pro em 2005), poderá dedicar-se às viagens promocionais com seus camaradas e evoluir o que restou do surfe brilhante que apresentou quando surgiu.
Terá um problema sério pela frente, sem agenda nem compromisso arrisca deixar a inércia corromper seu gigantesco potencial.
Por pior que seja, o circuito mantem caras como Bruce na linha por algum tempo, entre o início e o meio do circuito, porque depois disso é ladeira abaixo.
Ano passado no Hang Loose, em Novembro, um desmotivado Bruce dava pena. Completamente bêbado e drogado mal conseguia equilibrar-se na prancha - ainda assim, foi responsável por um dos melhores aéreos de toda competição.
Temo pelo futuro dele.
Se depender das suas companhias, pode acabar como Butch Van Artsdalen, excepcional surfista, primeiro Mr. Pipeline morto no ano que Bruce nasceu, 1979.
Causa da morte ? Cirrose.
O mundo parece sempre estar tres doses atrás de surfistas como Bruce.

Um camarada desses com a cabeça no lugar...


