Tudo Azul

A revista Surfer de Junho desse ano - que saiu em abril- traz uma matéria sobre o livro Blue Mind, (Editora Little, Brown and Company; EUA - Julho 2014) do biólogo americano Wallace J. Nichols.
A teoria de Nichols é que a água nos oferece o maior atalho para a felicidade.
Simples assim.
Depois de pesquisar durante anos a relação do homem com a água, junto de psicólogos, neurocientistas, surfistas, mergulhadores e toda sorte de gente que luta pela conservação da natureza, Nichols chegou a uma série de conclusões que acabou por virar um dos livros mais emblemáticos dos lista dos mais vendidos do New York Times.
Blue Mind começa por mostrar que todos nós somos gerados e já nascemos cercados de água, com o tempo somos obrigados a aprender a viver longe dela - ou sem ela em volta.
Vamos secando - para usar uma metáfora bem adequada.
De certa maneira, diz o livro, passamos boa parte da vida tentando voltar para aquela sensação boa que nos remete as primeiras memórias de ser (estar) vivo.
Os estudos de Nichols testam as reações do cérebro em diferentes ambientes aquáticos.
Se levarmos em consideração que tanto nosso corpo quanto o planeta Terra é composto por mais de 70 % de água, não é assim tão difícil imaginar o poder de cura, ou apenas bem estar, que o mar possui.
Isso sem contar que os oceanos são responsáveis por metade do oxigênio da nossa atmosfera.
Citando dois psicólogos ambientais, Stephen e Rachel Kaplan, ele menciona dois estados diferentes de atenção: dirigido e involuntário.
O primeiro representa o nosso estado de alerta quando aplicado a uma tarefa ou decisão- dirigir um carro, enviar um email, ou escolher qual prancha usar.
O outro, ocorre quando estamos num ambiente distante do nosso habitat normal, da nossa rotina, ainda assim com alguma familiaridade para não oferecer ameaça e manter nossa cuca fresca e engajada - numa tradução livre.
É um estado de deriva (um termo náutico, como observa Nichols), podemos também chamar de contemplativo, que a água causa.
Nós todos sentimos isso.
Olhando para o mar, como um dos hipnotizados pelo oceano dos livros de Melville, tudo parece estático, ao mesmo tempo mudando sutilmente - um veleiro, uma gaivota, a maré esvaziando.
Essa é a atenção involuntária, que nós surfistas, assim como mergulhadores e pescadores, nos submetemos quase todos os dias e que, segundo o livro, nos coloca nesse estado que ele chama de Blue Mind.
Você nem precisa estar de frente pro mar.
Pode acontecer numa floresta, ouvindo música no metrô, mesmo em plena aula de matemática, olhando a fotografia duma onda de sonho…
Os estudos apontam para uma série de reações químicas que emprestam ao cérebro sensações que normalmente, principalmente nos dias de hoje, são alcançadas somente com ajuda de drogas.
Parece papo de maluco- e é.
As pesquisas realizadas mostram que quando estamos próximos da água produzimos uma galáxia de neuro-químicos que nos fazem sentir bem, como dopamina (prazer e inovação), serotonina (bem estar e paz), endorfina (euforia e ausência de dor), oxitocina (amor e união), Gaba (Ácido gama-aminobutírico = serenidade) e até mesmo os endocanabinóides, nossa própria capacidade de criar algo semelhante ao princípio ativo da maconha, reduzindo a ansiedade.
Tudo isso acontece dentro da sua cachola, acredite.
O livro apresenta exemplos de casos perdidos, como um veterano da guerra do Golfo, Bobby Lane.
Lane voltou completamente perdido, desajustado, sofreu traumas sérios na cabeça, não conseguia falar direito, sofria de trauma pós guerra, viciado na super medicação que recebia, resolveu cometer suicídio.
Tentou a morte por policiais, quando um ex combatente faz algo para provocar um oficial até ser alvejado, porque como um guerreiro, ele mesmo não teria coragem de tirar sua vida.
Bobby acabou fazendo uma aula de surfe numa organização chamada Operation Surf, em Santa Cruz, na Califórnia.
Tres tentativas e ele estava surfando. Meses depois, o veterano recuperou a alegria de viver, descreve Nichols.

Junior Faria procurando azul em preto e branco - Por Jair Bortoleto
Acreditando ou não nas teorias de Nichols, a mensagem é poderosa,
A água é tanto amante quanto mãe, assassino e doador de vida, fonte e dreno...
Água desencadeia a criança desinibida em todos nós, destravando a nossa criatividade e curiosidade.
Intuímos os sentimentos uns dos outros, antes mesmo da nossa mente consciente ter tido tempo para processá-los:
empatia é fundamental aqui.
Se a água nos permite libertar o nosso eu interior, então ele poderia ser o antídoto para as telas que nos mantêm acordados, ansiosos e espasmódicos.
Em um mundo superaquecido e desidratado, voce precisa de água e a água precisa de você.
A coisa vai adiante,
Na nossa mentalidade ocidental, nós super valorizamos tanto a ciencia que a ideia de ficar sentado, imóvel, na esperança de transcender parece comica e seus praticantes são motivo de chacota.
Água, conclui Nichols, Medita voce!

Gosto de imaginar o dia em que seremos todos esse senhor de chapéu, apontando para as memórias nem tão distantes, inventando histórias tentando ainda impressionar a escolhida, passados mais de 40 anos ao seu lado... - Foto do Jair Bortoleto


